Luzes demais, luzes de menos

Pisca-alerta, faróis de neblina e até faróis baixos são usados quando
não deveriam ou ficam apagados quando se deveriam acender

por Fabrício Samahá

Coisa de 20 dias atrás eu estava chegando a São Paulo pela Rodovia SP-70 Ayrton Senna quando fui surpreendido por uma chuva torrencial, com direito a granizo, daquelas em que a velocidade mais alta do limpador de para-brisa mal chega a dar conta. Muitos motoristas decidiram esperar no acostamento até que o tempo melhorasse; outros, como eu, preferiram seguir viagem a cerca de 30 km/h, o ritmo que as condições permitiam.

Entre esses colegas que continuaram na estrada, algo me chamou a atenção: sem que as condições de visibilidade piorassem, mais e mais pessoas acionavam o pisca-alerta enquanto continuavam a rodar. Não havia retenção repentina do tráfego, o dilúvio não estava maior que minutos atrás, o trajeto reto e plano por um trecho de quatro pistas era o mesmo — mas, por alguma razão, o festival de luzes amarelas crescia a cada minuto.

De acordo com o Código de Trânsito Brasileiro (CTB), o pisca-alerta pode e deve ser usado apenas "em imobilizações ou situações de emergência" (art. 40, inciso V). Embora o código não esclareça o que seja emergência, parece claro que, se o carro continua a rodar, ainda que em baixa velocidade e sob más condições de visibilidade, não se trata de emergência.

Usar o pisca-alerta sob chuva forte, neblina densa ou outra condição crítica de visibilidade não só contraria a legislação, como também o bom-senso. Se essa sinalização foi feita para um veículo parado — seja na pista, como por defeito mecânico ou acidente, seja no acostamento —, o motorista consciente da lei deve interpretar que o carro adiante, se estiver com pisca-alerta ligado, não está em movimento.

Qual o efeito disso quando mal se enxerga a estrada e, de repente, se veem as luzes de um veículo assim sinalizado? Claro: frear forte e/ou desviar para a esquerda, medidas que podem causar desde engavetamentos até colisões frontais, como no caso de se sair da própria pista e invadir a contramão.

O mais curioso é que, dos carros que vi em meio àquele dilúvio, vários — Peugeot 206 e Citroën C3, por exemplo — estavam equipados com luz traseira de neblina, que tem potência similar à da luz de freio e das luzes de direção e, por isso, amplia a sinalização do carro em trânsito. Pergunte se algum desses carros tinha tal luz acesa. Claro que não... Talvez os motoristas nem soubessem de sua existência.

A lei não determina, mas é prática corrente — e coerente — usar o pisca-alerta por instantes quando ocorre brusca retenção do tráfego, como ao encontrar um congestionamento em rodovia e ter de frear, por exemplo, de 100 para 40 km/h em segundos. Nessa situação, a luz piscante associada à de freio tem ampliado o efeito de chamar a atenção de quem vem atrás, indicando que se trata de frenagem intensa. No entanto, uma vez que o tráfego atrás de você acompanhe a redução de velocidade, desligue o alerta. E jamais faça uma mudança de pista enquanto ele estiver acionado, pois a luz de direção não atuará.

É por isso que alguns carros, como muitos BMWs mais novos, têm luzes de freio de duplo estágio, que piscam rapidamente quando o pedal é acionado com vigor. Outros, caso de Peugeot 307 e Ford Focus, acionam o pisca-alerta por si mesmos quando a desaceleração é intensa. É também por isso que defendo que o botão do pisca-alerta tenha local padronizado e ao fácil alcance da mão direita, como no centro do painel — não acima da coluna de direção, onde requer um movimento menos imediato.

Fabrício Samahá, editor

Neblina, onde?
Além do mau uso do pisca-alerta, há outros problemas no tráfego brasileiro relacionados a iluminação e sinalização. Como os faróis de neblina, acessórios tão valorizados por aqui. Um estrangeiro que repare em nossos carros terá duas suposições: a de que nosso clima se assemelha ao de Londres e a de que somos o povo mais consciente do planeta em relação à visibilidade em meio ao nevoeiro. Ambas as hipóteses, porém, estão erradas.

Como o nome diz, faróis de neblina servem para iluminar... na neblina. Têm facho direcionado para baixo e para os lados, alcance curto e, em geral, montagem no para-choque, de onde podem iluminar a pista por baixo da cerração. Assim, representam iluminação mais eficaz nessas condições que os faróis baixos, aqueles que devem ser usados por quem não tem os de neblina.

No entanto, por alguma razão inexplicável, existe em muita gente o hábito de usar faróis de neblina sem neblina. Como luz diurna para o carro ser visto em rodovia,  ainda são válidos (hoje alguns modelos usam leds para tal função): o problema é pensar que eles substituem a qualquer tempo os faróis baixos, que o CTB nos manda usar do pôr do sol até o amanhecer.

Por seu facho curto, faróis de neblina não têm o alcance necessário para substituir os baixos, fazendo o motorista rodar quase às cegas em vias expressas e rodovias. Se usados em conjunto com eles, nada acrescentam em iluminação. Como não têm qualquer reflexão para cima — justamente para evitar reflexo nas gotículas de água do nevoeiro —, não fazem brilhar os elementos de sinalização, como o "pare" das placas em cruzamentos, o que pode levar a um acidente. E, se o proprietário os regula mais altos para compensar o pequeno alcance, causa um incômodo e perigoso ofuscamento a quem vem no sentido contrário.

A situação se agrava quando as lâmpadas originais são substituídas por outras mais potentes ou — pior — por aquelas com gás xenônio adaptadas a faróis que não estão aptos a recebê-las, uma praga que se espalha sem controle pelo País, amparada na falta de fiscalização. O resultado é sempre o mesmo: para enxergar um pouco melhor (talvez por ter colocado no para-brisa um filme bem escuro), o motorista manda às favas a segurança dos colegas de trânsito.

Ainda sobre luzes de neblina, outra praga nacional: o uso da luz traseira de nevoeiro sob qualquer condição, menos sob neblina. Assim como os motoristas citados no início do texto não a acendiam em condição adequada a seu uso, muitos — muitos mesmo — a ligam quando não deveriam, na cidade ou na estrada, em condições normais de visibilidade, e saem cegando quem vem atrás com a potente lâmpada vermelha. Mesmo com uma luz âmbar no painel para indicar que a lanterna está acesa, esses motoristas parecem não perceber a bobagem que estão fazendo.

Bobagem que perde, porém, para a de rodar na cidade só com as luzes de posição acesas, sem faróis. O princípio parece ser o de que se consegue dirigir apenas com a iluminação das vias, o que dispensaria o farol baixo, mas essas pessoas não percebem que um carro assim mal pode ser visto por outros motoristas, motociclistas e pedestres. Embora alguns considerem essa uma mania paulista, tenho dúvidas se está restrita ao estado de São Paulo, até porque maus hábitos se espalham com facilidade.

Luzes demais aqui, luzes de menos acolá: pode ser um problema menor diante de tantos do trânsito brasileiro, mas certamente merece atenção do Poder Público. Que velocidade excessiva, ultrapassagens perigosas e bebida ao volante trazem graves riscos, qualquer motorista tem conhecimento — essas mazelas só se resolvem com fiscalização séria e permanente. Já o mau uso da iluminação e da sinalização requer campanhas de esclarecimento que nunca são feitas, mas deveriam ser.

Um estrangeiro terá duas suposições: a de que nosso clima se assemelha ao de Londres e a de que somos o povo mais consciente do planeta em relação à visibilidade em meio ao nevoeiro
 

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Data de publicação: 12/3/11

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